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Tuesday, June 12, 2007

IV - O Sistema Partidário Português ou o Centrismo Ideológico

Não é por acaso que os bloquistas falam do "centrão" depreciativamente, como o vazio ideológico da governação socialista moderada.
Todos pretendem, afinal, ser "centristas", porque isso significa, em última instância, ser moderado e até dá votos! Claro, com pequenas "nuances": centro-direita, centro -esquerda, centro propriamente dito.
Mas, em bom rigor, não há verdadeiramente diferenças entre os "centrismos" - são todos uma e a mesma coisa: um vazio ideológico verdadeiramente confrangedor!
E cumpre aqui falar do CDS-PP (Centro Democrático-Social, Partido Popular). Porque tem "centro" na sua designação, porque foi o primeiro partido político, em Portugal, a usar essa terminologia e porque -pasme-se! - verifica-se que se reivindica do centro na voz de certos seus mentores ideológicos.
E o centro políticamente falando é o quê? Nada! Moderação ... oposição ao radicalismo (ao sectarismo e ao facciosismo, tão típicos dos partidos da esquerda, isso mesmo, radical).
A terminologia do "centrismo" surge em França para servir gregos e troianos, e é importada a belo prazer por quem defende que a ideologia morreu ...
Nesta lógica, o CDS-PP seria então um partido sem ideologia ... apenas moderado na sua expressão política, ou então defender-se-ia que o centrismo é ideologia e seria verdadeiramente o partido do centro! Um centro Democrático e Social!
Democrático por defender as regras da democracia parlamentar e social porque seria informado pelas preocupações sociais da chamada doutrina social de igreja (católica, romana, diga-se de passagem).
Por esta via o CDS seria um partido de pendor claramente democrata-cristão (retiraria os seus ensinamentos, basicamente, das encíclicas papais), com uns "pózinhos" de personalismo filosófico, como defendia o Pro. Freitas do Amaral.
Mas quem funda o CDS, fá-lo num período revolucionário em que a direita era "fascista" e anatemizada por tudo o que era cabeça "bem pensante". Esquencendo, ignorando ou mistificando, que fascismo é esquerda, porque os extremos se tocam, como é esquerda o socialismo nacionalista hitleriano (vulgo nazismo). Hitler tinha um pensamento político claramente socialista (portanto, de esquerda), embora não marxista e defendia regimes autoritários anti-democráticos. Mussoline foi toda a vida, até à fundação do partido fascista italiano, um militante anarco-sindicalista, com trabalho jornalístico de algum relevo nos pasquins revolucionários esquerdistas do tempo.
Qualquer regime autoritário do tipo "fascista", nacionalista, só pode ser claramente anti-americano, por oposição ao liberalismo que combate. Portanto, chamar a isso "direita" é, no mínimo, não falar verdade!
A direita, é, por tradição, democrática e liberal, e encontra o seu expoente máximo na Revolução Fancesa de 1789 e na Independência Americana, herdeira dos mesmos valores.
Assim sendo, e porque a política americana na Europa (de par com a divisão geo-estratégica do mundo de então, ainda na chamada "guerra fria") era de não tolerar regimes autoritários de tipo comunista, o regime político português, de democracia nascente, para ser isso mesmo - democracia - haveria de ter um leque político-partidário que afirmasse a pluralidade de ideias políticas e isso implicava a existência de um partido que se afirmasse mais à direita.
O Centro democrático Social, surge um pouco à laia dos "centros republicanos" da 1ª República;
havia que atribuir uma designação ao partido que o distinguisse da esquerda, mas pretendia-se afirmar valores ideológicos que implicassem, só por si, alguma "moderação" anti-socialista.
E, curiosamente (ou talves nem tanto) um dos fundadores do CDS, precisamente o Prof. Freitas do Amaral, afirma ainda que não foi ele que mudou, foi o partido que de si se afastou!...
E, de resto, nem se estranhe que ele esteja "próximo" dos sociais-democratas, porquanto essa é uma tradição de sempre dos democratas-cristãos (recordemos o malogrado Aldo Moro, ex-primeiro ministro italiano e as suas variadas coligações à esquerda, com o Partido Socialista).
Mas o CDS ideológiamente não é apenas um partido informado pelo ideário democrata-cristão e personalista. O facto de ser o único partido à direita que se afirma com credibilidade na área do poder político, leva-o a congregar todas as ideias e forças que, à direita, militam pelos direitos humanos e pela democracia.
Assim, liberais e conservadores irmanam-se com democratas-cristãos e personalistas, de par com democratas populares (e alguns "populistas" à laia da tradição latino-americana) e o partido surge como ideológicamente o mais rico do expectro político português, longe, muito longe do vazio ideológico que representa o centrismo.
"Centrista", nesse caso, será a esquerda de má consciência social-democrata e não a direita política.
O facto dos "fazedores de opinião"(vulgo jornalistas) atribuirem ao PSD um posicionamento à direita na política portuguesa, só é verdade porque os partidos sociais-democratas sempre estiveram à direita do Partido Comunista, o que não significa que não sejam eles próprios de esquerda, como é evidente. E isso só acontece porque a democracia portuguesa tem um historial "sui generis", apenas explicável por mais de quarenta anos de ditadura.
(cont.)

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