(cont.)
É que Marx afirmaria ser a "democracia burguesa" (parlamentar/representativa) uma verdadeira "ditadura da burguesia", fundamentalmente devido ao controlo ideológico, da superstrutura social. E, por outro lado, admitira ser possível atingir o socialismo/comunismo através de uma "ditadura do proletariado" do tipo "ditadura da burguesia", mas agora onde o controlo ideológico estaria ao serviço do POVO. Formalmente tratar-se-ia de uma democracia ... só que, popular!
Coisa bem diferente foram as chamadas "democracias populares" criadas pelo radicalismo marxista/leninista e/ou maoista, que, de facto, eram ditaduras na sua essência, organização interna e forma de funcionamento. Oportunamente teremos concerteza ocasião para falar do Estado e dos vários conceitos a que tem estado sujeito.
Mas o Partido Socialista, dizendo-se defensor da corrente do socialismo democrático outra coisa não é do que um verdadeiro partido social-democrata! É necessário afirmar que "social-democracia" e "socialismo democrático" são uma e a mesma coisa em todos os países do mundo e na História das ideias políticas desde o seu início, como foi referido.
A social-democracia é fundamentalmente Marxista na sua génese, é "filha" do comunismo, pretendendo interpretá-lo através de uma leitura atenta de Marx e do abandono completo das teorias leninistas acerca do Estado e do Partido.
Não adianta, em Portugal, pretender-se que a realidade política é outra. Todos os partidos políticos socialistas, trabalhistas, social-democratas, são hoje filiados na Internacional Socialista, essa mesma fundada por Marx e Engels, nos idos finais do séc. XIX.
O pensamento dos chamados socialistas utópicos, desde Platão, passando por Hobbes, Fourier ou Saint-Simon ( e talvez Santo Agostinho, quem sabe?) não tem qualquer expressão prática ou ideológica nestes partidos, porquanto essas questões foram amplamente debatidas no âmbito do marxismo e foram definitivamente afastadas.
Tentar "branquear" o passado e o presente ideológico destes partidos políticos é faltar à verdade e ser intelectualmente desonesto ou, o que é pior, ignorante!
Mas aqui, passamos a lidar com uma outra realidade. Os partidos "charneira" na sociedade portuguesa, como é o caso do Partido Socialista, enfermam de um complexo herdado dos franceses, designado de "centrismo político".
Hoje, com a nova realidade sociológica das sociedades de classe média - afastada, pelo menos em teoria, a tese marxista da estratificação social - todos os partidos não radicais pretendem o lugar do "centro", eleitoralmente pensado mais confortável.
E depois, é fácil etiquetar: centro-esquerda, centro-direita, centro. São os famosos partidos centristas. É o centrismo como afirmação quase ideológica, quando na realidade o que se trata é de despudorado esquerdismo camuflado de moderado, precisamente porque as sociedades mudaram desde Marx e o Materialismo Histórico é dialéctico, é transmutável, é criativo e reflecte, em cada época histórica, uma leitura diferente do real.
Quanto ao Partido Social-Democrata, vulgo PSD, ele tem uma outra história, mas de duas uma: ou os seus dirigentes são intelectualmente e factualmente honestos e se trata de um verdadeiro partido social-democrata como o respectivo nome indica ou então não é assim, e têm andado sistematicamente a intrujar o povo português! Nós pretendemos crer na primeira hipótese, até porque o homem que a preconizou sempre revelou inteireza de carácter, Sá-Carneiro.
Fundador, de par com Balsemão, Emídio Guerreiro e outros, deputados da chamada "ala liberal" da Assembleia Marcelista, do Partido Popular Democrático, de matriz ideológica liberal, filiava-se nas correntes liberais e populistas acontecidas um pouco pelo mundo.
Quando Sá-Carneiro decide transformar o PPD em PSD, pretende a sua adesão à Internacional Socialista, para comprovar a sua verdadeira vinculação aos ideais socialistas. Mário Soares, na altura representante maior dos socialistas portugueses, opôs-se e podia fazê-lo, porquanto já existia um partido português aí filiado e apenas com o seu consentimento expresso seria possível filiar um outro partido, no mesmo país, com igual referência ideológica. Não que não pudesse existir, porque existiria (e existe!), mas porque o faria por sua conta e risco.
E eis-nos de novo no âmbito da , passe o termo, "redundância política"! Dois partidos disputam o mesmíssimo eleitorado e ambos se dizem defensores dos mesmos valores ideológicos : a social-democracia, que o mesmo é dizer: o socialismo democrático!
Novamente no campo do "centrismo" político, a diferenciação entre os "centrismos" tem que passar por etiquetar de esquerda e de direita cada um dos centrismos escolhidos.
Então, numa versão muito divulgada na imprensa ( a soldo sabe-se muito bem de quem!), o Partido Socialista ocuparia o "centro-esquerda" e o PSD o "centro-direita". Tudo muito fácil e claro! Só que a realidade não parece ser exactamente assim ...
(continua)
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